sábado, novembro 03, 2007

...livraria...

Todas as pessoas que me apego vão embora.
Quase todas.
Preciso reter sentimento.
Perda.Não suporto.

Eu digo até mais ver.
Somente eu.

Rotatividade sabida contudo abalada.
Preciso vê-los.Entre os meus dedos se vão...

entendo mas não entendo o que estou entendendo.

De nada vim de nada fiz de nada levo

Nada sou - sou indefinição total da palavra.

Rasa

Farsa

sábado, setembro 15, 2007



The cow went to the swamp

Confesso que não conhecia um clássico dos clássicos de Millôr, o bendito A vaca foi pro brejo.Fui apresentada em meio ao caos de um típico sábado da livraria.Rogério, meu estimado colega, não parava de rir no fundo da loja.Claro que a minha curiosidade americana falou mais alto e lá estávamos derramando lágrimas por causa do Sr.Fernandes.O livro reúne traduções de provérbios brasileiros para gringo ler e não entender...rs

Segue abaixo algumas delas:

afinal de contas / in the end of calculations

anda meio escabreado / he walks half ex-she-goated

arrebentar a boca do balão / to blow up the balloon's mouth

aspone ( assessor de porra nenhuma) / saaa ( sperm at all assessor)

botou fogo na canjica / he put fire in the dish made of grated green corn, sugar, coconut milk and cinnamon

carioca da gema / carioca of the egg's yolk

comigo não, violão / not with

me, guitar

deu no que deu / it gave in what it gave

deu-lhe um branco / it gave him a white

é fogo na roupa / it's fire in the clothes

e no cu não vai nada? / and nothing goes into the asshole?

isso é papel que se faça / is that a paper to make? ( a melhor!!!)

tá ruço / it's sovietc















sexta-feira, setembro 07, 2007

Em uma festa sempre tem um bêbado pra estragar a noite...rs

terça-feira, agosto 28, 2007


Hoje fui ao São Cristóvão Bar bebericar com Marilhão, Bião e Paulão: as mulheres mais homens da livraria.Sexta-feira combinei um grande encontro na Paulista com o bunéco-japonês-amarelo-gracioso e Gláucio/Biana, a devassa.
Ando melancólica, desanimada, vazia.Amigos se vão e fica apenas a incerteza se a amizade ficará abalada com a distância.Duas grandes pessoas foram buscar novos rumos e hoje, sinto uma falta desesperada deles.Cada um me ensinou a ser mais tolerante, sensata e acima de tudo, profissional.
Gláucio se tornou meu irmão querido.Meu companheiro de PFs, de DR's, de we love fofoca, bafons e confissões com trilha de Fábio Jr ao fundo.
Marilhão é meu amigo truta, mano.É da cervejada e tequilada, bobeira de celular gostoso enfiado na bunda, reclamação típica de aquarianas e relax total ao som de Bowie.
Me fale como poderei viver sem a presença dessas duas figuras?
hum?

obs: antes de alguma reação possessive de ser, informo que este desabafo é sobre pessoas que não terei mais contato diário...rs

terça-feira, agosto 07, 2007


Show do Ludov na Livraria da Vila neste último sábado, 04 de agosto.


Estava ansiosa em assistir uma apresentação deles mas nunca encontrava ou tempo ou grana nos bolsos para prestigiá-los.
Troquei o horário de trabalho com um amigo, arrumei o som para a banda, peguei a câmera na mochila e quase perco a música de abertura: Dois a Rodar.
Show intimista, show gostoso.Pessoal simpático, principalmente os meninos das cordas.Fiquei com vergonha em conversar com a cantora, por isso quase não olhava nos olhos dela.Bobeira, eu sei.Mas fazer o quê se tenho vergonha das mulheres...rs

Fiz umas gravações toscas na câmera e depois colocarei por aqui e no orkut.

As fotos estão no site do flickr, tanto no meu quanto no da livraria.

terça-feira, julho 31, 2007

Uma melodia...
Fernando Pessoa - Poesias Inéditas


Uma melodia
No meu ser nasceu...

Senti-a, perdia-a;

Nascendo morreu...


Relâmpago breve,

Vendo-a não a vi;

Mas a minha alma a teve,

Nova, e sua, e em si.


Que horror de mágoa

Busco-a em vão, em vão...

Fugiu-me da mão, água...

Nem abri a mão...


Que importa, olhos meus?

Passou por meu ser

De Deus para Deus...

Torná-la-ei a ter.

quarta-feira, julho 25, 2007

Adotarei agora o estilo Edinanci Silva.Em tudo.

quarta-feira, julho 11, 2007

Ideia genial executada de uma maneira simples.
by Zach Lipovsky (Programa On The Lot)



* sobrevivendo ao tedio*

segunda-feira, julho 09, 2007

As mais pedidas


Nao resisti e acabei copiando o post da Sol, pois a homenagem foi muito comovente.

quarta-feira, junho 27, 2007

A CENA MAIS DRAMATICA DE TODOS OS TEMPOS

sábado, junho 16, 2007

Viagem de Chihiro


Ontem assisti finalmente a Viagem de Chihiro, dvd prontamente emprestado pelo Glaucio.Como passei batido por esse filme eu nao sei.E literalmente fantastico.Confesso que no inicio estava meio relutante, a historia nao fazia sentido algum.Mas a viagem dela e muito interessante e nos mostra como perdemos a inocencia tao facilmente.Nao escutamos ninguem, agimos por conta propria.Por causa disso as consequencias disso sao drasticas.Nos tornamos um bicho pronto para ser devorado por outro ser mais elevado.Somos salvos por gestos ou atitudes singelas de quem menos esperamos.
Claro que no final do filme, eu e Raquel estavamos debulhando em lagrimas.Principalmente quando descobrimos quem o amigo dela, Haku, era.
Agora vou copia-lo bem bonita :D




domingo, junho 10, 2007


Lembro do dia que ganhei este brinquedo gracioso.Eu tinha cinco anos e meu pai apareceu com uma caixa grande e quadrada envolta em um papel brilhoso avermelhado.Deixou debaixo da escrivaninha.Olhei fixamente para o pacote e acabei por perguntar se o presente seria meu, afinal, meu aniversario seria em poucos dias.Ele, rispidamente, respondeu que nao.Deixei para la.
Quando acordei com seis aninhos, a caixa vermelha estava ao lado da minha cama.O sorriso deve ter ido de uma tempora a outra.Ao retirar todo o papel, fita e acordar meus irmaos com todo o estardalhaço, me deparei com esta casa de cogumelo.A primeira e unica casa de bonecas que tive.Na verdade, casa de bonecos.Vinha uma familia inteira: pai, mae, dois filhos e um cachorro.Para entrar tinha que colocar um boneco por vez no elevador, rodando a manivela amarela.Nao existiam quartos mas um salao aonde as camas ficavam prontamente uma ao lado da outra.Uma casa moderna se for pensar hoje em dia em studios e lofts da vida.
O fim da cogumelos's house nao me lembro.Recordo que o elevador quebrou uma vez mas no que se sucedeu neste incidente e um misterio.Porem, nunca me esqueci deste brinquedo tao estranho.Esta foto foi 'roubada' do flickr da Tata.
Ah, como era bom brincar de casinha.Quando enjoava, era so fechar a tampa do telhado e aguardar a vontade reaparecer.

sábado, junho 09, 2007

Sound & Vision





quinta-feira, maio 17, 2007




Clarice
&
Aforismos




E ninguém é eu, e ninguém é você. Esta é a solidão.

Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.

Eu escrevo simples. Eu não enfeito

Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo.

Escrevo para me manter viva

Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro

Ouve-me, ouve o meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa. Capta essa outra coisa de que na verdade falo porque eu mesma não posso.

Eu sou uma pergunta

Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.
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E ainda nem visitei o Museu da Lingua Portuguesa...

terça-feira, maio 08, 2007

Vote nas 7 novas maravilhas do mundo

Acontece pela internet e celular uma votação para as sete novas maravilhas do mundo.O concurso é promovido pelo filantropo suiço Bernard Weber da fundação New 7 Wonders.Dentre as opções sugeridas consta o Cristo Redentor, porém, a estátua brasileira ainda não aparece nos dez mais votados.Para que isso se torne possível, seriam necessários mais de cinco milhões de votos.

Até a data de hoje, e por ordem alfabética, os dez primeiros lugares são ocupados pela Acrópolis de Atenas, Coliseu Romano, Grande Muralha da China, as estátuas da Ilha de Páscoa, Machu Picchu, a Pirâmide de Chichén Itzá, a cidade de Petra (Jordânia), Stonehenge, Torre Eiffel e o Taj Mahal.

Os resultados serão conhecidos no dia 7 de julho no Estádio da Luz, em Lisboa, onde será realizada a cerimônia da Declaração Universal, que será televisionado para o mundo todo.

Eleja suas maravilhas no site www.corcovado.com.br.



quinta-feira, abril 26, 2007

Verso da Semana

"A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa"


Fernando Pessoa
no poema Há metafísica bastante em não pensar em nada.

domingo, abril 22, 2007

Essa semana fiquei perturbando o Gláucio por ter baixado no youtube o clipe da música More than a feeling, uma canção dos anos 80, altamente cafona.Com certeza foi trilha de algum filme tosco de sessão da tarde e/ou música integrante daquelas coletâneas das rádios mais famosas da época.
Mas hoje, chegando em casa, depois de um domingo master-plus-big-over-deveras estressante, a única coisa que me fez realmente relaxar foi ter ligado o winamp e colocado pra ouvir Don't go breaking my heart com Elton John & Kiki Dee...

Gláucio estava certo.

A tosqueira sempre salva.



segunda-feira, abril 09, 2007



# Não vejo a hora #

quarta-feira, março 28, 2007

Acabei de comprar Quando fui outro de Fernando Pessoa do selo Alfaguara.Na hora da pausa, o descanso de uma hora do trabalho, fui ao café e li o primeiro poema do livro.Mergulhei nos versos seguintes e quando dei por mim, os olhos estavam marejados; teimavam ceder e transparecer a minha fraqueza diante de tais palavras.
Poesia pode ser difícil e às vezes chato de ler, porque, provavelmente, não conseguiu tocar a pessoa de uma maneira mais objetiva.Porém, quando nos identificamos com certos poemas, a paixão é instantânea.
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Tabacaria
Fernando Pessoa

    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

    Janelas do meu quarto,
    Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
    (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
    Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
    Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
    Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
    Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
    Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
    Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

    Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
    Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
    E não tivesse mais irmandade com as coisas
    Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
    A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
    De dentro da minha cabeça,
    E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

    Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
    Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
    À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
    E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

    Falhei em tudo.
    Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
    A aprendizagem que me deram,
    Desci dela pela janela das traseiras da casa.
    Fui até ao campo com grandes propósitos.
    Mas lá encontrei só ervas e árvores,
    E quando havia gente era igual à outra.
    Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

    Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
    Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
    E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
    Gênio? Neste momento
    Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
    E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
    Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
    Não, não creio em mim.
    Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
    Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
    Não, nem em mim...
    Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
    Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
    Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
    Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
    E quem sabe se realizáveis,
    Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
    O mundo é para quem nasce para o conquistar
    E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
    Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
    Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
    Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
    Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
    Ainda que não more nela;
    Serei sempre o que não nasceu para isso;
    Serei sempre só o que tinha qualidades;
    Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
    E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
    E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
    Crer em mim? Não, nem em nada.
    Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
    O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
    E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
    Escravos cardíacos das estrelas,
    Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
    Mas acordamos e ele é opaco,
    Levantamo-nos e ele é alheio,
    Saímos de casa e ele é a terra inteira,
    Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

    (Come chocolates, pequena;
    Come chocolates!
    Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
    Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
    Come, pequena suja, come!
    Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
    Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
    Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

    Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
    A caligrafia rápida destes versos,
    Pórtico partido para o Impossível.
    Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
    Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
    A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
    E fico em casa sem camisa.

    (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
    Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
    Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
    Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
    Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
    Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
    Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
    Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
    Meu coração é um balde despejado.
    Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
    A mim mesmo e não encontro nada.
    Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
    Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
    Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
    Vejo os cães que também existem,
    E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
    E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

    Vivi, estudei, amei e até cri,
    E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
    Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
    E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
    (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
    Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
    E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

    Fiz de mim o que não soube
    E o que podia fazer de mim não o fiz.
    O dominó que vesti era errado.
    Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
    Quando quis tirar a máscara,
    Estava pegada à cara.
    Quando a tirei e me vi ao espelho,
    Já tinha envelhecido.
    Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
    Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
    Como um cão tolerado pela gerência
    Por ser inofensivo
    E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

    Essência musical dos meus versos inúteis,
    Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
    E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
    Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
    Como um tapete em que um bêbado tropeça
    Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

    Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
    Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
    E com o desconforto da alma mal-entendendo.
    Ele morrerá e eu morrerei.
    Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
    A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
    Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
    E a língua em que foram escritos os versos.
    Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
    Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
    Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

    Sempre uma coisa defronte da outra,
    Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
    Sempre o impossível tão estúpido como o real,
    Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
    Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

    Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
    E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
    Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
    E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

    Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
    E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
    Sigo o fumo como uma rota própria,
    E gozo, num momento sensitivo e competente,
    A libertação de todas as especulações
    E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

    Depois deito-me para trás na cadeira
    E continuo fumando.
    Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

    (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
    Talvez fosse feliz.)
    Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
    O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
    Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
    (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
    Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
    Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
    Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

    Álvaro de Campos, 15-1-1928